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O paradoxo do ajuste fiscal: cortar gastos pode elevar a inflação, destruir empregos e piorar as contas públicas

Ao retirar subvenções dos combustíveis e reonerar a folha, o ajuste fiscal pode elevar custos e inflação, enfraquecer salários, empregos e arrecadação. Entenda o paradoxo.

Caminhão-tanque descarrega combustível em posto de abastecimento; fotografia de arquivo ilustrativa dos custos de logística

Imagem ilustrativa de arquivo (Finlândia, 2018). Foto: Santeri Viinamäki / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fuel_tank_truck_delievering_fuel_to_petrol_station_20180604.jpg

Economia | Análise e opinião | 30 de outubro de 2026

Ao retirar subsídios e ampliar a tributação sobre a produção, o governo pode desencadear um ciclo de aumento de custos, perda de poder de compra, desemprego e juros elevados. O resultado pode ser justamente o contrário do equilíbrio fiscal prometido.

O debate econômico brasileiro frequentemente parte de uma premissa aparentemente incontestável: reduzir despesas e ampliar receitas melhora as contas públicas. Entretanto, essa interpretação desconsidera uma questão fundamental da macroeconomia: as receitas e despesas do Estado não são independentes do comportamento da economia.

Uma decisão que melhora imediatamente o resultado primário pode, simultaneamente, provocar consequências sobre os custos de produção, os preços, o emprego, o consumo e a arrecadação tributária. Dependendo da intensidade dessas consequências, a economia pode entrar em uma trajetória na qual o esforço inicial de ajuste fiscal acaba comprometendo a própria sustentabilidade das contas públicas.

Esse risco ganha importância quando o ajuste envolve a retirada de subvenções sobre combustíveis e a elevação da tributação incidente sobre a folha de pagamentos.

Combustíveis: a economia inteira paga a conta

O combustível não é apenas um produto consumido diretamente pelas famílias. Ele constitui um insumo fundamental para o funcionamento da economia brasileira.

O diesel abastece o transporte de mercadorias, influencia a produção agrícola, os custos logísticos, a distribuição de alimentos e inúmeras atividades industriais. Sua elevação de preço não fica restrita aos postos de combustíveis: percorre as cadeias produtivas e pode alcançar praticamente todos os setores econômicos.

Em 28 de outubro de 2026, o governo federal anunciou a prorrogação, por mais 30 dias, da subvenção de R$ 2,12 por litro de diesel. A própria justificativa oficial reconhece a necessidade de atenuar as pressões dos preços internacionais sobre os custos domésticos. Leia o anúncio do Ministério da Fazenda.

Caso essa proteção seja retirada em um momento de preços internacionais elevados, parte do custo anteriormente absorvido pelo orçamento público poderá ser transferida diretamente para consumidores e empresas.

O transportador enfrenta um combustível mais caro. A distribuidora aumenta seus custos. O supermercado paga mais pelo transporte. O produtor rural enfrenta despesas maiores. A indústria incorpora novos custos à produção.

O resultado potencial é uma pressão inflacionária que não nasce de um excesso de consumo, mas de um encarecimento das condições necessárias para produzir e distribuir bens e serviços.

Nesse cenário, o governo reduz uma despesa orçamentária, mas contribui para elevar o custo de vida da população.

O gasto desaparece de uma rubrica do orçamento público, mas seu efeito econômico não desaparece: ele pode ser transferido para os preços e para o orçamento das famílias.

Reoneração da folha: o ajuste pode comprometer salários e empregos

Outro problema está associado à retirada das desonerações sobre a folha de pagamentos.

A reoneração gradual já está prevista para diversos setores da economia brasileira, com retorno integral ao modelo tradicional em 2028. Essa mudança altera a estrutura de custos das empresas que se beneficiavam do regime anterior. Consulte a Lei nº 14.973/2024.

Quando o custo tributário associado à contratação aumenta, as empresas precisam decidir como absorver essa nova despesa.

Aquelas que possuem poder de mercado podem transferir parte do aumento aos consumidores, pressionando os preços. Outras, submetidas à concorrência intensa, podem ser obrigadas a reduzir suas margens de lucro.

Empresas que já operam com margens estreitas enfrentam dificuldades maiores. Para preservar sua viabilidade, podem reduzir contratações, interromper investimentos, limitar reajustes salariais, diminuir o quadro de funcionários ou, em situações extremas, encerrar suas atividades.

A pressão também alcança os trabalhadores empregados. Ainda que os salários nominais não sejam imediatamente reduzidos, menores reajustes e uma inflação mais elevada podem provocar perda de salário real.

Portanto, uma política destinada a ampliar a arrecadação tributária pode simultaneamente reduzir a massa salarial, enfraquecer a demanda e comprometer a capacidade produtiva da economia.

O efeito não é necessariamente uniforme: depende das condições financeiras, da produtividade, da concorrência e da capacidade de cada setor de absorver os custos adicionais. Entretanto, o mecanismo econômico é claro: tributar mais intensamente a contratação pode desestimular o emprego justamente quando a economia precisa preservar renda e atividade.

O paradoxo da inflação com recessão

Um dos principais equívocos no debate fiscal é imaginar que medidas recessivas necessariamente produzem uma redução imediata e generalizada da inflação.

É possível que uma economia enfrente simultaneamente desaceleração da atividade e elevação de determinados preços.

Isso acontece porque a inflação não depende exclusivamente da demanda agregada. Choques de custos, restrições de oferta e alterações tributárias também afetam a formação de preços.

Quando o governo retira subsídios de insumos essenciais e aumenta os custos associados à produção, pode criar pressões inflacionárias ao mesmo tempo que reduz o poder de compra das famílias.

A população passa a pagar mais por bens essenciais, mas dispõe de menos renda para consumir. As empresas enfrentam custos maiores, enquanto suas vendas perdem dinamismo.

Nesse ambiente, a queda do consumo pode posteriormente conter parte da inflação, mas isso não elimina o impacto inicial dos choques de custos nem as perdas de renda e produção ocorridas durante o processo.

O ajuste fiscal, portanto, pode colocar a economia diante de uma combinação particularmente prejudicial: crescimento baixo, desemprego crescente e preços pressionados.

A reação do Banco Central pode aprofundar a contração econômica

A interação entre política fiscal e política monetária torna esse processo ainda mais delicado.

O Banco Central brasileiro trabalha com metas de inflação e utiliza a taxa Selic como seu principal instrumento de política monetária.

Se a retirada de subsídios provocar aumentos de preços que se disseminem pela economia, contaminando expectativas e reajustes futuros, o Banco Central poderá considerar necessário manter os juros elevados por mais tempo ou até elevar a Selic.

Há uma distinção importante: a autoridade monetária não precisa reagir automaticamente ao efeito inicial de um choque temporário de oferta. O risco surge especialmente quando esse choque produz efeitos secundários persistentes.

O problema é que juros elevados não produzem petróleo, não reduzem diretamente o custo tributário da folha e não eliminam as restrições físicas que encarecem a logística.

Sua principal transmissão ocorre pelo encarecimento do crédito e pela contenção da demanda.

Assim, uma inflação inicialmente pressionada pelos custos pode acabar sendo enfrentada por uma política monetária que reduz consumo, investimento e atividade econômica.

As empresas já afetadas pelo aumento dos custos produtivos passam a enfrentar também financiamentos mais caros e uma demanda mais fraca.

A consequência potencial é uma nova rodada de redução de investimentos, demissões e dificuldades financeiras.

O governo tenta economizar com subsídios, mas a economia pode acabar pagando essa economia por meio de inflação, juros e desemprego.

O ajuste fiscal que destrói a própria arrecadação

É nesse ponto que surge a principal contradição.

A arrecadação tributária depende diretamente da atividade econômica. Salários, lucros, faturamento, consumo e produção constituem bases sobre as quais incidem diferentes tributos.

Quando trabalhadores perdem seus empregos, a massa salarial diminui. Quando o consumo recua, parte da arrecadação associada às vendas também perde dinamismo. Quando empresas reduzem lucros ou encerram atividades, outras fontes de receita tributária são comprometidas.

Portanto, o ganho fiscal inicialmente obtido pela retirada de subsídios ou pelo aumento de determinados tributos não pode ser analisado isoladamente.

É necessário considerar os efeitos indiretos dessas decisões sobre o conjunto da economia.

Além disso, o desemprego e a deterioração das condições sociais podem aumentar a necessidade de políticas de assistência e proteção social.

Há ainda o componente financeiro. Caso a inflação resultante desses choques leve à manutenção de juros elevados por mais tempo, o custo de financiamento da dívida pública poderá permanecer pressionado.

Esse último efeito não integra o resultado primário, mas afeta o resultado nominal das contas públicas e a trajetória dos encargos financeiros do Estado.

O resultado pode ser um paradoxo: o governo melhora inicialmente alguns indicadores orçamentários, mas provoca uma desaceleração que enfraquece as bases econômicas necessárias para sustentar sua arrecadação futura.

Não significa que toda retirada de subsídio ou ampliação tributária resulte necessariamente em deterioração fiscal. Significa que a avaliação de qualquer ajuste precisa considerar seus efeitos sobre a renda, o produto, o emprego e a inflação.

O equilíbrio fiscal não é independente da atividade econômica. Uma economia em recessão pode dificultar a própria consolidação fiscal que se pretendia alcançar.

Responsabilidade fiscal não pode significar irresponsabilidade econômica

A discussão sobre as contas públicas brasileiras precisa superar a ideia de que toda redução de despesa representa necessariamente um avanço econômico.

Há despesas que sustentam a capacidade produtiva, preservam empregos, reduzem custos e amortecem choques externos. Sua eliminação pode produzir perdas econômicas superiores à economia orçamentária inicialmente projetada.

Isso não significa defender subsídios permanentes, indiscriminados ou sem avaliação de eficiência. Significa reconhecer que o momento, a composição e os efeitos de cada medida importam.

Uma subvenção temporária destinada a impedir que um choque internacional de combustíveis se espalhe pela estrutura de preços possui características econômicas diferentes de um benefício que apenas preserva a rentabilidade de determinado grupo empresarial.

Da mesma forma, a tributação sobre o trabalho precisa ser avaliada não somente pelo potencial imediato de arrecadação, mas também por suas consequências sobre a formalização, a contratação e a massa salarial.

Um programa fiscal que ignora essas relações corre o risco de perseguir a melhoria de um indicador contábil sacrificando os fundamentos econômicos que sustentam as próprias finanças públicas.

O Estado pode reduzir despesas e, ao mesmo tempo, provocar queda de produção, perda de arrecadação, inflação de custos e juros persistentemente elevados.

Nesse cenário, o resultado fiscal inicialmente anunciado como positivo pode se revelar transitório, enquanto os prejuízos econômicos e sociais permanecem.

A verdadeira responsabilidade fiscal exige compreender essa relação de causalidade.

Não basta perguntar quanto o governo economizará ao cortar uma despesa. É preciso perguntar quanto a economia poderá perder em produção, empregos, salários e arrecadação como consequência desse corte.

Afinal, um ajuste fiscal que enfraquece a economia responsável por gerar sua base tributária pode deixar de ser uma solução e transformar-se em parte do problema.

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Comentários

2 respostas a “O paradoxo do ajuste fiscal: cortar gastos pode elevar a inflação, destruir empregos e piorar as contas públicas”

  1. […] Leia também: Leia a análise sobre ajustes fiscais, emprego, inflação e arrecadação. […]

  2. […] Leia também: Leia a análise sobre ajustes fiscais, emprego, inflação e arrecadação. […]

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