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Augusto Cury pregou humanidade, mas escolheu o bolsonarismo: as contradições de um discurso de pacificação

O escritor que prometeu superar a polarização apoiou Flávio Bolsonaro no segundo turno. A escolha levanta questões sobre coerência, democracia, ciência e viabilidade de suas propostas.

Augusto Cury em fotografia ao ar livre de 2008, usada como imagem de arquivo para artigo de opinião sobre suas posições políticas de 2026.

Augusto Cury em foto de arquivo de 2008. Lima Andruška / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0. https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/ (sem alterações editoriais).

ARTIGO DE OPINIÃO | FANDNEWS | 30 DE OUTUBRO DE 2026

O escritor que prometeu superar a polarização terminou apoiando Flávio Bolsonaro. A decisão expõe tensões entre sua retórica humanista, as propostas de campanha e as posições do grupo político que decidiu endossar.

Augusto Cury construiu uma carreira falando sobre empatia, inteligência emocional, respeito às diferenças e valorização da vida. Ao disputar a Presidência da República em 2026 pelo Avante, tentou transformar essa reputação em um projeto político de pacificação nacional. Entretanto, a decisão de apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno revelou uma contradição que não pode ser ignorada.

O escritor que prometeu superar a polarização acabou escolhendo um dos seus principais representantes.

Em 21 de setembro, Cury disse que não apoiaria nem Lula nem Flávio Bolsonaro. Depois do primeiro turno, em 4 de outubro, reiterou que não declararia apoio aos finalistas. Quatro dias depois, em 8 de outubro, anunciou apoio ao senador do PL, após a assinatura de uma carta de compromissos.

Mudar de posição é um direito político. Mas quem constrói sua imagem pública sobre coerência emocional, diálogo e princípios precisa explicar por que um documento assinado foi suficiente para alterar uma posição apresentada publicamente com tanta firmeza.

O humanismo de Cury resiste à proximidade com o bolsonarismo?

Não se trata de afirmar que Flávio Bolsonaro seja responsável por todos os atos de seu pai. Trata-se de observar as posições que o próprio senador assumiu e o projeto político que representa.

Flávio defendeu uma anistia ampla que beneficiaria Jair Bolsonaro e condenados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Também negou, durante uma sabatina eleitoral, que a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes constituíssem uma tentativa de golpe.

Jair Bolsonaro, por sua vez, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal em setembro de 2025 por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. É diante desse contexto que a escolha de Augusto Cury precisa ser examinada.

Como conciliar a defesa da pacificação com o apoio a um projeto que propõe reverter consequências judiciais de um ataque às instituições democráticas?

O problema ganha contornos mais graves quando se considera o histórico de declarações de Jair Bolsonaro durante a pandemia, marcado por falas de desdém diante das mortes e pelo confronto com recomendações sanitárias. Uma política verdadeiramente humanista precisa ter compromisso com a vida, com a ciência e com as instituições. Não basta transformar essas palavras em manifesto eleitoral.

Promessas grandiosas e uma conta econômica mal esclarecida

As contradições também aparecem no programa econômico de Augusto Cury. Seu plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral defendia simultaneamente um déficit público próximo de zero, a redução gradual da dívida pública, a expansão do ensino integral, a criação de programas de crédito, investimentos em saúde e o desenvolvimento de 10 milhões de novos empreendedores.

Esses objetivos não são necessariamente incompatíveis, mas exigem respostas concretas sobre financiamento, capacidade de execução e prioridades orçamentárias.

Quais despesas seriam reduzidas? Qual seria o custo dos programas? Em que prazo seriam implementados? Como uma política fiscal orientada à redução do déficit responderia a uma recessão, quando o gasto público pode ser necessário para sustentar emprego e renda?

Governar um país não é escrever um livro motivacional. Desejar resultados não equivale a demonstrar como produzi-los.

Há também uma proposta de criação do Ministério do Empreendedorismo e da Economia Distribuída, embora o Brasil já tenha um Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, instituído em 2023 e formalizado por lei em 2024. A questão relevante seria explicar o que a nova estrutura faria de diferente e por que seria mais eficiente.

A autoridade científica também precisa ser questionada

Outro aspecto merece atenção: o uso da reputação de Cury como especialista da mente humana para conferir autoridade às suas ideias políticas.

Reportagens da Folha de S.Paulo registraram questionamentos de psiquiatras sobre a fundamentação científica da Teoria da Inteligência Multifocal e da chamada síndrome do pensamento acelerado. Cury contestou as críticas e defendeu suas formulações.

A controvérsia não apaga sua trajetória como escritor, mas revela uma exigência básica para políticas públicas: popularidade não substitui validação científica. Programas nacionais de saúde mental precisam ser avaliados por evidências, resultados clínicos, custos e segurança, não pelo prestígio comercial de seu idealizador.

Uma carta não apaga contradições políticas

Cury argumentou que seu apoio a Flávio Bolsonaro não seria irrestrito e que cobraria respeito aos direitos humanos, às minorias e às instituições democráticas. Essa ressalva deve ser registrada. Mas ela não resolve o problema central.

Uma carta de intenções não representa, por si só, uma mudança efetiva nas posições de um candidato ou de seu grupo político. Não explica como seriam tratadas as divergências sobre os atos de 8 de janeiro, sobre a anistia ou sobre os limites da atuação do Estado.

Se o compromisso com a humanidade é inegociável, deveria existir um padrão público e verificável para julgar essas questões. Caso contrário, a pacificação corre o risco de se transformar em uma palavra conveniente: suficientemente ampla para conquistar simpatia e suficientemente vaga para acomodar alianças contraditórias.

O fracasso da coerência

Augusto Cury terminou o primeiro turno com 3.448.569 votos, o equivalente a 2,89% dos votos válidos, conquistados em parte por uma imagem de independência diante dos grupos políticos tradicionais. Seu apoio a Flávio Bolsonaro não pode ser apresentado como um detalhe secundário dessa trajetória.

O escritor tinha o direito de escolher um lado. Seus eleitores têm o mesmo direito de questionar a escolha.

A trajetória eleitoral de Cury deixa uma lição incômoda: falar sobre empatia não garante compromisso político com ela; defender a paz não dispensa o enfrentamento de responsabilidades; apresentar boas intenções não elimina a necessidade de demonstrar viabilidade econômica e institucional.

A humanidade não pode ser apenas uma marca pessoal. Precisa aparecer nas decisões difíceis, sobretudo quando os princípios declarados entram em conflito com as conveniências políticas.

A principal crítica a Augusto Cury não é ter participado de uma eleição e escolhido um lado no segundo turno. É que sua escolha colocou em dúvida a distância entre os valores que proclamou e o projeto que decidiu apoiar.

E essa contradição exige mais do que uma explicação sobre inteligência emocional. Exige uma explicação política.

FandNews — Opinião e Análises. Texto de interpretação crítica baseado em declarações públicas, documentos eleitorais e reportagens. Os juízos de valor expressam a análise editorial.

Fontes e documentos

Plano de governo — Tribunal Superior Eleitoral

CNN Brasil — Declaração de Cury em 21 de setembro

CNN Brasil — Apoio a Flávio Bolsonaro em 8 de outubro

CNN Brasil — Carta de compromissos e votos recebidos

Agência Brasil — Declaração de Flávio sobre o 8 de Janeiro

CNN Brasil — Defesa de anistia ampla por Flávio Bolsonaro

STF — Condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro

Folha de S.Paulo — Questionamentos científicos à teoria de Cury

Agência Brasil — Propostas de ministério e crédito ao empreendedor

Governo Federal — Criação do Ministério do Empreendedorismo

UOL/BBC — Declarações de Jair Bolsonaro durante a pandemia

Imagem: Augusto Cury em fotografia de arquivo de 2008. Lima Andruška / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

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