Editorial de abertura da editoria Mundo Militar | Opinião do FandNews
A defesa brasileira precisa ser organizada em torno de uma decisão política simples: nenhuma potência estrangeira deve ter poder de veto sobre a capacidade do país de proteger seu território. Isso exige Forças Armadas bem equipadas, conhecimento industrial próprio e liberdade para definir prioridades sem seguir a estratégia militar de Washington.
Os Estados Unidos concentram uma parcela excepcional do poder militar mundial. Segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares norte-americanos chegaram a US$ 954 bilhões em 2025. No mesmo ano, o Brasil gastou US$ 23,9 bilhões, conforme a mesma base. Os valores são estimativas de despesas militares expressas em dólares correntes de 2025; não representam diretamente capacidade de combate, mas ajudam a dimensionar a desigualdade de recursos.
A influência militar norte-americana deve ser observada com o mesmo rigor aplicado às ações da Rússia, da China e de qualquer outro Estado. Uma decisão tomada na Casa Branca pode atender aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e contrariar os brasileiros. O FandNews defenderá o direito do Brasil de discordar, negociar e manter distância de guerras que não correspondam aos seus interesses.
O Ministério da Defesa estabelece uma orientação semelhante para a soberania nacional. A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa aprovadas pelo Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025, colocam a dissuasão, a integridade territorial e os interesses nacionais no centro do planejamento. O documento também ressalta o respeito à soberania dos Estados e ao direito internacional.
Essa orientação deve aparecer nos contratos de compra, nas escolas militares e nas linhas de produção. Aeronaves, submarinos, radares, sistemas de comunicação e munições podem perder utilidade estratégica quando o país depende inteiramente de fornecedores externos para mantê-los em operação. O desafio brasileiro é formar engenheiros, dominar componentes críticos e financiar projetos de longa duração, em vez de apenas anunciar aquisições.
A apresentação do primeiro F-39 Gripen produzido no Brasil, em março de 2026, é um exemplo concreto dessa escolha. A Força Aérea Brasileira relacionou o projeto à transferência de tecnologia e à ampliação da base industrial de defesa. O mesmo raciocínio se aplica aos programas nacionais de transporte aéreo, construção naval e proteção cibernética: o valor estratégico cresce quando há capacidade brasileira de projetar, fabricar e manter sistemas.
Há uma objeção relevante. A própria Força Aérea Brasileira defende parcerias internacionais como parte da modernização de sua frota, e a experiência do Gripen demonstra que cooperação tecnológica pode acelerar a formação de competências nacionais. Esse argumento é válido. A questão decisiva é a qualidade da transferência de tecnologia, a participação da indústria brasileira e a possibilidade de operar os equipamentos sem autorização política de outro governo.
Uma política nacionalista responsável precisa ainda fiscalizar o gasto militar. Investir em defesa sem exigir planejamento, compras transparentes e resultados industriais concretos apenas desloca recursos públicos para fornecedores. A soberania que defendemos inclui controle democrático, profissionalismo das Forças Armadas e respeito aos direitos da população civil, inclusive durante conflitos armados.
A nova editoria Mundo Militar acompanhará as guerras em andamento, mudanças de doutrina, arsenais, exercícios, tecnologias e os efeitos econômicos e humanitários dos conflitos. Reportagens trarão fontes verificáveis e distinguirão informações confirmadas de declarações dos beligerantes. Os editoriais terão posição clara, inclusive crítica às intervenções e às pressões militares dos governos norte-americanos. A crítica se dirige às políticas do Estado e de suas lideranças, não à população dos Estados Unidos.
O Brasil tem interesses próprios no Atlântico Sul, na Amazônia, nas fronteiras e no espaço aéreo. Cabe ao país organizar sua defesa em função dessas necessidades, com capacidade de cooperação quando ela servir ao interesse nacional e de recusa quando não servir.
Fontes utilizadas
- Ministério da Defesa — Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa — fonte primária
- Presidência da República — Decreto nº 12.725, de 18/11/2025 — fonte primária
- Força Aérea Brasileira — primeiro F-39 produzido no país, 25/03/2026 — fonte primária
- SIPRI — Trends in World Military Expenditure, 2025 (abril de 2026) — fonte primária
Informações pendentes de verificação: nenhuma entre os dados factuais citados neste editorial.
Fotografia de arquivo: KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira no exercício CRUZEX 2024, em Natal (RN). Foto: Alexandro Dias / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Embraer_KC-390_Millennium.jpg



