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Paraguai: Senado inicia julgamento de Santiago Peña após colapso do Ueno Bank

Senado do Paraguai inicia julgamento político de Santiago Peña, que permanece presidente após apresentar renúncia não aceita; crise do Ueno Bank afeta milhões.

Santiago Peña, presidente do Paraguai até anunciar sua renúncia em novembro de 2026

Santiago Peña em junho de 2026. Foto: Isaac Castillo / Presidência da República do Equador / Wikimedia Commons (domínio público).

Atualização de 6 de novembro de 2026: o Senado do Paraguai iniciou o julgamento político do presidente Santiago Peña, que apresentou sua renúncia na quinta-feira (5), mas permanece no cargo porque a renúncia não foi formalmente aceita. Peña não compareceu à sessão desta sexta-feira; seus advogados contestaram o procedimento. Segundo a Associated Press, os senadores rejeitaram por 39 votos a 3 um pedido de mais 72 horas para a defesa. Não havia decisão final de destituição confirmada nas reportagens consultadas nesta atualização.

A crise começou com a intervenção no Ueno Bank, instituição que atendia quase 3 milhões de clientes. A suspensão do acesso a contas e pagamentos provocou protestos; algumas restituições começaram, mas muitos clientes ainda aguardam seus recursos. Parlamentares acusam Peña de conflito de interesses e interferência na supervisão bancária, alegações que ele nega. A eventual destituição pode afetar sua imunidade e o andamento das investigações. O vice-presidente Pedro Alliana ainda não havia tomado posse. Fontes desta atualização: Reuters, 6/11/2026 e Associated Press, 6/11/2026.

Santiago Peña, presidente do Paraguai, em fotografia de arquivo
Santiago Peña, fotografado em junho de 2026. Foto: Isaac Castillo/Presidência do Equador, via Wikimedia Commons (domínio público).

A renúncia foi comunicada por vídeo em redes sociais, enquanto deputados discutiam a responsabilização do presidente. Peña justificou a decisão com a necessidade de preservar a estabilidade do Paraguai, a paz social e as instituições democráticas. Também pediu desculpas aos cidadãos e afirmou que a devolução dos depósitos bancários deve ser prioridade.

O que aconteceu com o Ueno Bank

O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank na terça-feira (3), após identificar problemas de solvência e irregularidades nas demonstrações financeiras. O índice de capital da instituição ficou abaixo da metade do mínimo legal exigido depois de ajustes contábeis. A interrupção dos serviços afetou um banco digital que dizia atender cerca de 2,9 milhões a 3 milhões de clientes, parcela expressiva da população paraguaia.

Aplicativo, cartões, transferências e agências deixaram de funcionar normalmente, impedindo clientes de acessar salários, economias e benefícios. O fechamento desencadeou protestos em Assunção e uma corrida para abrir contas em outras instituições. Autoridades iniciaram procedimentos para transferir contas e viabilizar pagamentos aos depositantes.

Suspeitas de operações irregulares e dinheiro público

As investigações apontam suspeitas de crédito concedido a empresas ligadas aos controladores do banco, documentação insuficiente e despesas registradas indevidamente como ativos. Segundo informações divulgadas pelo Ministério Público paraguaio, o Ueno teria simulado a venda de uma carteira de crédito de aproximadamente US$ 74,4 milhões a uma empresa que, de acordo com a apuração, também estava vinculada à própria instituição. São alegações investigativas, não condenações definitivas.

Outro ponto central é a presença de recursos públicos no balanço do banco. Reportagens da Reuters e da Associated Press estimam que a instituição administrava aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em depósitos de entidades públicas, incluindo recursos ligados à previdência e à saúde. A concentração desses valores em uma instituição que apresentava fragilidades de capital ampliou o impacto social e político da quebra.

Peña havia sido investidor de uma empresa vinculada ao grupo controlador do Ueno até 2025. Parlamentares da oposição levantaram acusações de conflito de interesses, mau uso de recursos previdenciários e falhas de fiscalização. Peña negou envolvimento em irregularidades. O escândalo também levou à renúncia de Carlos Carvallo, que comandava o Banco Central, e à detenção de oito executivos ligados ao banco, enquanto outras pessoas passaram a ser investigadas.

O que ocorre com a renúncia e o impeachment

A Câmara dos Deputados aprovou o avanço do processo de impeachment, inclusive com apoio de integrantes do Partido Colorado, legenda de Peña. A votação na Câmara não equivale, por si só, à destituição definitiva: o julgamento político depende de tramitação no Senado. A Associated Press informou que as duas casas recusaram a renúncia apresentada por Peña e que o Senado decidiu prosseguir com o julgamento. A rejeição da renúncia altera a perspectiva de sucessão imediata e mantém a disputa sobre a responsabilidade política do presidente.

Se houver destituição, o vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor constitucional. Até uma decisão formal, não é correto apresentar a transferência de poder como concluída.

Dinheiro dos clientes: existe garantia dos depósitos?

O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos. Segundo as autoridades e reportagens sobre a intervenção, a cobertura equivale a cerca de aproximadamente US$ 36 mil a US$ 38 mil por depositante, valor sujeito às regras e conversões aplicáveis. A cobertura protege grande parte dos clientes em termos de número de contas, mas não significa que todos terão acesso imediato aos recursos. A Associated Press informa que o fundo garantidor iniciou os pagamentos a contas menores e que o limite legal deve cobrir integralmente os saldos de cerca de 97% dos clientes; o processo de recuperação dos valores continua.

As perdas potenciais acima do limite de garantia, a recuperação dos ativos do Ueno e o destino final dos valores públicos ainda dependem dos procedimentos de resolução, da investigação e das decisões das autoridades.

Por que a crise bancária virou uma crise política

A solvência bancária depende da qualidade dos ativos, da capacidade de absorver perdas e da transparência dos balanços. Quando empréstimos problemáticos são contabilizados de modo a esconder riscos, o capital efetivamente disponível pode ser muito menor do que o informado. Depósitos volumosos de órgãos públicos, por sua vez, aumentam a repercussão social de uma quebra e exigem maior rigor dos mecanismos de controle e governança.

O episódio expõe o custo de possíveis falhas de supervisão e de relações pouco transparentes entre governo, reguladores e empresas financeiras. Não há, porém, evidência suficiente para concluir que todo o sistema bancário paraguaio esteja insolvente: o problema identificado se concentra no Ueno, embora a perda de confiança possa atingir outras instituições. O banco central interino sustenta que o restante do sistema permanece sólido.

Para a economia paraguaia, as consequências imediatas envolvem a interrupção dos meios de pagamento de clientes afetados, a pressão sobre empresas e trabalhadores com recursos bloqueados e o risco de deterioração da confiança. A dimensão de eventuais impactos sobre investimento, crédito, câmbio e comércio regional — inclusive com o Brasil — ainda precisa ser acompanhada.

Fontes e acompanhamento

Informações apuradas e confrontadas com Associated Press, Reuters, Agência EFE e Folha de S.Paulo. Reportagem publicada em 5 de novembro de 2026 e atualizada em 6 de novembro, com a informação da AP de que o Congresso recusou a renúncia e o Senado prossegue com o julgamento político. A situação institucional e bancária está em desenvolvimento.

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