EDIÇÃO DIGITAL Brasil · Política · Economia · Mundo

Notícias de política, economia e atualidades

Opinião e análise

Como a China domesticou seu sistema bancário e colocou o crédito a serviço do desenvolvimento

Como a China utiliza bancos estatais, política monetária, crédito direcionado e controles de capital para subordinar as finanças às prioridades de desenvolvimento — e os limites desse modelo.

Fachada da sede do Banco Popular da China na rua financeira de Pequim, fotografada em outubro de 2025.

Sede do Banco Popular da China, em Pequim. Foto: Boubloub/Wikimedia Commons (CC0), outubro de 2025.

Enquanto em boa parte do Ocidente o sistema bancário tem grande influência sobre o custo e o destino do crédito, a China construiu uma arquitetura em que bancos, autoridades monetárias e instituições de desenvolvimento operam sob uma orientação estatal explícita. A diferença não está na ausência de bancos comerciais ou de lucro, mas em quem tem a palavra decisiva sobre as prioridades do financiamento.

Nesse contexto, dizer que o sistema financeiro chinês foi “domesticado” não significa que o país tenha eliminado os mercados, os riscos ou o interesse privado. Significa que a intermediação financeira é tratada como instrumento de política econômica, e não como uma esfera institucional que deva determinar, por si só, a estratégia nacional de desenvolvimento.

O Estado controla os bancos que controlam o crédito

A presença estatal é estrutural. Os seis maiores bancos comerciais chineses — Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), China Construction Bank, Agricultural Bank of China, Bank of China, Bank of Communications e Postal Savings Bank of China — são controlados pelo poder público, direta ou indiretamente. Segundo levantamento da OCDE publicado em setembro de 2026, essas seis instituições concentravam 41,7% dos ativos bancários ao final de 2023.

Um estudo da Rhodium Group, de setembro de 2026, estimou que sua participação chegava a 44% dos ativos dos bancos comerciais no fim de 2025. O controle público também se estende, por participações societárias e influência de governos locais, a instituições de porte médio e regional. Isso não elimina diferenças de gestão e rentabilidade entre os bancos, mas garante ao Estado influência direta sobre boa parte da criação e distribuição de crédito.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) descreveu o sistema como predominantemente bancário, amplamente controlado pelo governo e fortemente interconectado. A dimensão dessa estrutura ajuda a explicar por que decisões financeiras na China podem funcionar como alavancas para a política industrial em uma escala incomum.

A orientação do crédito não depende apenas da taxa de juros

A política chinesa reúne instrumentos que atuam sobre o preço, a quantidade e, sobretudo, a destinação do crédito. O Banco Popular da China (PBoC), equivalente ao banco central, utiliza operações de mercado, exigências de reservas, instrumentos de refinanciamento e mecanismos direcionados para influenciar as condições de financiamento. O sistema evoluiu para utilizar mais taxas de mercado como referência, mas não abandonou os mecanismos de orientação setorial.

Há ainda a chamada window guidance, orientação transmitida às instituições financeiras pelas autoridades para induzir comportamentos de concessão de crédito, além de metas, incentivos e avaliações prudenciais. Em 2023, uma reforma institucional criou a Comissão Financeira Central, órgão do Partido Comunista Chinês com função de coordenação e decisão sobre o setor financeiro, reforçando sua subordinação às prioridades políticas centrais.

Esse arranjo permite direcionar empréstimos para infraestrutura, modernização industrial, pequenas empresas, inovação tecnológica e transição energética. O ponto central é que a rentabilidade individual de cada operação convive com critérios de prioridade nacional definidos fora do conselho de administração dos bancos.

A política industrial entra no balanço bancário

Em março de 2025, o Conselho de Estado chinês definiu cinco grandes frentes para o sistema financeiro: tecnologia, finanças verdes, inclusão financeira, previdência e digitalização. O documento determina maior coordenação entre financiamento, indústria, tributação e política fiscal, com apoio a estratégias nacionais e a setores considerados prioritários.

Na prática, o governo pode combinar bancos comerciais, bancos de políticas públicas, garantias, refinanciamentos e financiamento de longo prazo para reduzir obstáculos financeiros a investimentos definidos como estratégicos. O China Development Bank, por exemplo, ocupa uma função distinta da de um banco comercial tradicional por atuar no financiamento de projetos alinhados a diretrizes nacionais.

Essa capacidade de coordenar financiamento e investimento ajuda a compreender a expansão chinesa em infraestrutura e cadeias industriais. Seria simplista atribuir seus resultados apenas ao crédito: escala produtiva, tecnologia, exportações, poupança, mercado interno e políticas industriais também importam. Mas seria igualmente equivocado tratar o financiamento como um elemento neutro dessa trajetória.

Controle sobre capitais: menos liberdade para a especulação internacional

A domesticação financeira inclui a relação com o exterior. A China mantém controles sobre movimentos transfronteiriços de capital, mesmo tendo ampliado mecanismos de acesso de investidores estrangeiros a determinados mercados. Essas restrições diminuem a exposição imediata do sistema doméstico a reversões de fluxos internacionais e dão às autoridades mais instrumentos para administrar a estabilidade financeira e cambial.

O FMI destaca que a integração financeira chinesa com o restante do mundo continua limitada, em parte por esses controles. Isso não significa isolamento completo: empresas e instituições chinesas realizam operações globais e o renminbi participa do comércio internacional. Significa, porém, que a abertura financeira está sujeita a condições estabelecidas pelo Estado.

A questão central não é simplesmente quem é dono dos bancos, mas quem define as prioridades que organizam a oferta de crédito e quais riscos a sociedade aceita assumir em nome dessas prioridades.

Os custos e as contradições do modelo

Direcionar crédito não equivale a garantir que todo investimento seja produtivo. A experiência chinesa também revela como garantias estatais, decisões políticas e incentivos mal calibrados podem sustentar projetos de baixo retorno, empresas excessivamente endividadas e financiamento persistente de governos locais.

Na avaliação de estabilidade financeira divulgada em abril de 2025, o FMI apontou vulnerabilidades no setor imobiliário, nos veículos de financiamento de governos locais e em instituições financeiras menores. Na consulta econômica divulgada em fevereiro de 2026, voltou a enfatizar os riscos associados a dívidas de governos locais e à qualidade dos ativos.

O controle financeiro pode ser usado para ampliar a capacidade produtiva, mas também pode postergar o reconhecimento de prejuízos. Além disso, a forte influência política sobre bancos e empresas suscita questões de transparência, competição e responsabilização. Não se trata, portanto, de um modelo livre de desequilíbrios ou automaticamente transferível para qualquer país.

O contraste com o Brasil e o papel do BNDES

A experiência chinesa recoloca uma discussão que o Brasil frequentemente reduz à taxa básica de juros: qual deve ser a função do sistema financeiro no desenvolvimento? Em um país de crédito caro e elevada concentração bancária, depender exclusivamente das condições comerciais oferecidas pelos bancos pode limitar projetos industriais de maturação longa, inovação e infraestrutura.

O Brasil dispõe de instrumentos próprios para enfrentar esse problema, especialmente o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os bancos públicos, as garantias e os mecanismos de crédito direcionado. Fortalecê-los não exige reproduzir o sistema político chinês, nem abrir mão de critérios técnicos, controle democrático, transparência ou disciplina de risco.

Como discutido em análise recente do FandNews sobre Selic, TJLP, TLP e BNDES, o desenho institucional das taxas e das fontes de financiamento de longo prazo afeta concretamente o investimento produtivo. A controvérsia brasileira não deveria ficar restrita à oposição abstrata entre mercado e Estado: ela envolve decidir quem terá acesso a recursos, a quais custos e para desenvolver que setores.

O que a China demonstra

O sistema chinês mostra que os bancos não são apenas intermediários passivos da poupança existente. Eles criam depósitos ao conceder empréstimos, administram riscos e direcionam poder de compra para determinados agentes e atividades. A arquitetura regulatória e monetária influencia decisivamente quais projetos se tornam financeiramente viáveis.

A opção chinesa foi colocar essa capacidade sob coordenação pública intensa. Seus resultados combinam investimentos em larga escala e transformação industrial com problemas relevantes de endividamento e alocação de recursos. Para o debate brasileiro, a lição institucional mais importante é que a organização do crédito é uma escolha de política econômica — e não um destino inevitável imposto pelo mercado financeiro.

Fontes e documentos

OCDE (2026): participação e controle estatal nos bancos chineses.

FMI (2025): avaliação do sistema financeiro chinês.

Conselho de Estado (2025): cinco prioridades do financiamento.

FMI (2026): análise macroeconômica e riscos financeiros.

Rhodium Group (2026): controle bancário e efeitos econômicos.

Imagem de capa: sede do Banco Popular da China em Pequim, fotografada em 2025 por Boubloub, via Wikimedia Commons (CC0).

Encontrou algum erro ou informação desatualizada? Consulte nossa política de correções.

Leia também

Comentários

2 respostas a “Como a China domesticou seu sistema bancário e colocou o crédito a serviço do desenvolvimento”

  1. […] Para aprofundar: Lara Resende, juros e concentração de renda · Sistema bancário chinês e crédito para o desenvolvimento. […]

  2. […] Para aprofundar: Juros do cartão de crédito · Sistema bancário chinês. […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *