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Buracos e contratos sob suspeita: Campo Grande enfrenta crise no asfalto; Pinhais mostra outro padrão de qualidade

Operação Buraco Sem Fim investiga contratos de R$ 113,7 milhões em Campo Grande. Enquanto a CPI atrasa, Pinhais se destaca pela cobertura de asfalto, drenagem e obras estruturais.

Buracos e rachaduras em uma rua asfaltada danificada, imagem de arquivo ilustrativa, não fotografada em Campo Grande nem em Pinhais.

Foto ilustrativa (fora de Campo Grande e Pinhais): Santeri Viinamäki / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Campo Grande (MS) chega ao fim de outubro de 2026 diante de dois problemas que se reforçam: ruas deterioradas e graves suspeitas sobre a gestão de contratos de manutenção. Enquanto motoristas enfrentam buracos, valas e riscos de acidentes, a Operação Buraco Sem Fim, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, investiga fraudes na execução e medição de serviços. A comparação com Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, expõe uma questão fundamental: não basta passar massa asfáltica; é preciso entregar pavimento de qualidade e cuidar da sua estrutura.

A crise vai além dos buracos

Em 12 de maio, o Ministério Público deflagrou a Operação Buraco Sem Fim, com sete mandados de prisão preventiva e dez de busca e apreensão. Foram encontrados pelo menos R$ 429 mil em espécie. Segundo o MPMS, a investigação identificou indícios de manipulação de medições e pagamentos por serviços que não correspondiam ao efetivamente realizado. Os contratos e aditivos obtidos pela empresa investigada entre 2018 e 2025 somam R$ 113,7 milhões. Esse valor representa a soma contratual sob investigação, e não um montante de desvio já comprovado.

As suspeitas são graves, mas precisam ser distinguidas de condenações definitivas. A responsabilidade individual dos investigados depende do devido processo legal. Para o contribuinte, a questão imediata é por que recursos destinados à conservação das ruas não se traduziram em pavimentação mais segura e duradoura.

O problema não ficou no passado. Em 16 de outubro, um automóvel foi engolido por uma cratera na Vila Margarida depois que o asfalto cedeu durante a chuva. Em 28 de outubro, moradores e motoristas voltaram a denunciar buracos e valas abertas em diferentes regiões da cidade.

Mais da metade do asfalto envelheceu — e a CPI segue adiada

Na Câmara Municipal, o secretário de Infraestrutura, André de Moura Brandão, informou em 27 de outubro que 53,6% dos cerca de 3,1 mil quilômetros de vias asfaltadas de Campo Grande têm mais de 30 anos. O próprio titular da pasta reconheceu que remendos isolados não resolvem o problema de uma malha com base e revestimento desgastados. A Prefeitura atribui parte das dificuldades às chuvas intensas, à idade da pavimentação e à reorganização dos contratos, e promete ampliar reparos e recapeamentos. Veja o diagnóstico apresentado à Câmara.

Também em 30 de outubro, a instalação da CPI do Tapa-Buraco foi adiada para depois do feriado de Finados, por impasse na escolha de seus cinco integrantes. Há 12 vereadores interessados nas vagas, segundo o presidente da Câmara. O atraso político em uma comissão destinada a apurar contratos e serviços já é, por si, motivo para cobrança pública de transparência e celeridade.

Pinhais: quase toda pavimentada, com obras estruturais

Pinhais, no Paraná, apresenta um contraponto concreto. Conforme dados do SINISA 2024, reproduzidos pelo Instituto Água e Saneamento, 94,8% das vias urbanas de Pinhais eram pavimentadas e contavam com meio-fio. Em Campo Grande, a proporção era de 75,8%. Na cobertura de redes subterrâneas de águas pluviais, a diferença também é expressiva: 94,8% em Pinhais e 40,8% em Campo Grande. Os números fazem parte do mesmo levantamento e permitem comparar a infraestrutura, embora não sejam, por si só, um teste da resistência do asfalto. Fontes: Pinhais e Campo Grande.

O diferencial de Pinhais não é apenas ter asfalto em praticamente todas as ruas: é a atenção à qualidade da execução. A prefeitura relata obras que incluem revisão e implantação de drenagem, reforço da base, pavimentação definitiva, meio-fio, calçadas acessíveis e sinalização. Essas são etapas essenciais para reduzir infiltrações e deterioração precoce. Na Rua Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, a revisão da drenagem e o reforço da base antecederam o novo asfaltamento.

Em 2025, Pinhais informa ter asfaltado 24 ruas, em mais de 10 quilômetros de intervenções, além de construir mais de 17 quilômetros de calçadas. Ações incluem pavimentação nova e recapeamento de vias existentes, conforme o balanço municipal divulgado em janeiro de 2026. Mesmo em outubro, a cidade seguia executando obras com drenagem e calçamento na região de Maria Antonieta. Isso ajuda a entender por que Pinhais pode ser tomada como exemplo de política de pavimentação mais completa.

Asfalto bom é aquele que dura

A qualidade percebida do asfalto de Pinhais merece destaque. Ruas com pavimento uniforme, estrutura adequada e intervenções integradas expressam uma escolha de gestão diferente da dependência permanente de operações emergenciais. Mas seria incorreto afirmar que todas as ruas de Pinhais têm desempenho excelente: a cobertura de 94,8% não mede diretamente lisura, espessura, resistência ou vida útil, e não foi identificada nesta apuração uma auditoria técnica comparativa que permita atribuir nota às duas cidades.

Ainda assim, a lição é clara: asfalto de boa qualidade depende de projeto, drenagem, base estável, material adequado, compactação, fiscalização e manutenção preventiva. Tapar uma cratera sem corrigir o que destrói o pavimento pode apenas adiar a próxima intervenção — e ampliar o custo pago pelos moradores.

O que Campo Grande precisa responder

O debate precisa sair da contagem de buracos tapados e avançar para indicadores públicos: quais contratos foram efetivamente executados, que trechos receberam manutenção, quais testes de qualidade foram feitos, quantos reparos voltaram a abrir e quanto custaria recuperar estruturalmente as vias mais degradadas? Isso exige fiscalização independente, transparência das medições e um plano de recapeamento de médio e longo prazo.

Campo Grande não precisa se conformar com ruas esburacadas como parte da paisagem urbana. Pinhais demonstra que é possível perseguir uma cobertura próxima da universalização e combinar o asfalto com infraestrutura que favoreça sua conservação. A diferença entre as duas realidades deve servir de cobrança por qualidade — e de exigência de responsabilização sempre que irregularidades forem comprovadas.

Imagem de capa ilustrativa, registrada fora das duas cidades: Santeri Viinamäki / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. A imagem não documenta ruas de Campo Grande nem de Pinhais.

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