Opinião e análise

Brasil precisa de defesa própria para resistir à tutela das grandes potências

Editorial de abertura da seção Mundo Militar: por que soberania brasileira, indústria de defesa e independência estratégica exigem distância da tutela militar dos EUA.

Aeronave de transporte militar Embraer KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira em Natal, durante o exercício CRUZEX 2024

Imagem de arquivo. KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira na CRUZEX 2024, em Natal. Foto: Alexandro Dias / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Editorial de abertura da editoria Mundo Militar | Opinião do FandNews

A defesa brasileira precisa ser organizada em torno de uma decisão política simples: nenhuma potência estrangeira deve ter poder de veto sobre a capacidade do país de proteger seu território. Isso exige Forças Armadas bem equipadas, conhecimento industrial próprio e liberdade para definir prioridades sem seguir a estratégia militar de Washington.

Os Estados Unidos concentram uma parcela excepcional do poder militar mundial. Segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares norte-americanos chegaram a US$ 954 bilhões em 2025. No mesmo ano, o Brasil gastou US$ 23,9 bilhões, conforme a mesma base. Os valores são estimativas de despesas militares expressas em dólares correntes de 2025; não representam diretamente capacidade de combate, mas ajudam a dimensionar a desigualdade de recursos.

A influência militar norte-americana deve ser observada com o mesmo rigor aplicado às ações da Rússia, da China e de qualquer outro Estado. Uma decisão tomada na Casa Branca pode atender aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e contrariar os brasileiros. O FandNews defenderá o direito do Brasil de discordar, negociar e manter distância de guerras que não correspondam aos seus interesses.

O Ministério da Defesa estabelece uma orientação semelhante para a soberania nacional. A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa aprovadas pelo Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025, colocam a dissuasão, a integridade territorial e os interesses nacionais no centro do planejamento. O documento também ressalta o respeito à soberania dos Estados e ao direito internacional.

Essa orientação deve aparecer nos contratos de compra, nas escolas militares e nas linhas de produção. Aeronaves, submarinos, radares, sistemas de comunicação e munições podem perder utilidade estratégica quando o país depende inteiramente de fornecedores externos para mantê-los em operação. O desafio brasileiro é formar engenheiros, dominar componentes críticos e financiar projetos de longa duração, em vez de apenas anunciar aquisições.

A apresentação do primeiro F-39 Gripen produzido no Brasil, em março de 2026, é um exemplo concreto dessa escolha. A Força Aérea Brasileira relacionou o projeto à transferência de tecnologia e à ampliação da base industrial de defesa. O mesmo raciocínio se aplica aos programas nacionais de transporte aéreo, construção naval e proteção cibernética: o valor estratégico cresce quando há capacidade brasileira de projetar, fabricar e manter sistemas.

Há uma objeção relevante. A própria Força Aérea Brasileira defende parcerias internacionais como parte da modernização de sua frota, e a experiência do Gripen demonstra que cooperação tecnológica pode acelerar a formação de competências nacionais. Esse argumento é válido. A questão decisiva é a qualidade da transferência de tecnologia, a participação da indústria brasileira e a possibilidade de operar os equipamentos sem autorização política de outro governo.

Uma política nacionalista responsável precisa ainda fiscalizar o gasto militar. Investir em defesa sem exigir planejamento, compras transparentes e resultados industriais concretos apenas desloca recursos públicos para fornecedores. A soberania que defendemos inclui controle democrático, profissionalismo das Forças Armadas e respeito aos direitos da população civil, inclusive durante conflitos armados.

A nova editoria Mundo Militar acompanhará as guerras em andamento, mudanças de doutrina, arsenais, exercícios, tecnologias e os efeitos econômicos e humanitários dos conflitos. Reportagens trarão fontes verificáveis e distinguirão informações confirmadas de declarações dos beligerantes. Os editoriais terão posição clara, inclusive crítica às intervenções e às pressões militares dos governos norte-americanos. A crítica se dirige às políticas do Estado e de suas lideranças, não à população dos Estados Unidos.

O Brasil tem interesses próprios no Atlântico Sul, na Amazônia, nas fronteiras e no espaço aéreo. Cabe ao país organizar sua defesa em função dessas necessidades, com capacidade de cooperação quando ela servir ao interesse nacional e de recusa quando não servir.

Fontes utilizadas

Informações pendentes de verificação: nenhuma entre os dados factuais citados neste editorial.

Fotografia de arquivo: KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira no exercício CRUZEX 2024, em Natal (RN). Foto: Alexandro Dias / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Embraer_KC-390_Millennium.jpg

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