Opinião e análise

Mulheres negras pagam juros maiores: inclusão bancária não pode significar crédito mais caro

Análise: relatório do BC mostra taxas médias de até 140% ao ano entre mulheres negras de baixa renda, e revela desigualdades na composição do crédito.

Distribuição de carteiras de trabalho na Agência do Trabalhador, Brasília, em maio de 2007. Fotografia de arquivo, ilustrativa do emprego no Brasil.

Imagem de arquivo. Brasília, Dia do Trabalho em 2007. Marcello Casal Jr. / Agência Brasil, Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR).

ANÁLISE ECONÔMICA | O crescimento das contas bancárias e dos meios de pagamento digitais representou um avanço no acesso ao sistema financeiro, mas não assegurou igualdade nas condições de financiamento. O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central, com dados referentes a 2024, identificou diferenças relevantes no custo médio do crédito por gênero e raça.

O que revelam as taxas

Entre pessoas inscritas no Cadastro Único, a taxa média ponderada do crédito contratado por mulheres negras alcançou 140% ao ano, conforme os dados apresentados pelo Banco Central. Para mulheres brancas, o indicador foi de 128%; para homens negros, 110%; e para homens brancos, 97%. Esses números medem o custo médio das carteiras analisadas, não uma taxa única cobrada em todos os contratos.

A diferença não demonstra, isoladamente, que um banco tenha aplicado discriminação direta ao aprovar empréstimos. O custo contratado também reflete modalidades utilizadas, renda, garantias, histórico e condições financeiras. Ainda assim, o resultado evidencia uma desigualdade concreta que precisa ser enfrentada por políticas de crédito e por práticas mais transparentes.

A composição da carteira importa

O estudo indica que mulheres negras de baixa renda recorrem proporcionalmente mais a modalidades caras, como o rotativo e o parcelamento da fatura do cartão. Ao mesmo tempo, alternativas de crédito produtivo mais adequadas às necessidades de pequenos negócios não necessariamente chegam com a mesma facilidade ou custo.

Essa estrutura pode criar uma situação paradoxal: pessoas formalmente incluídas no sistema bancário continuam pagando caro para acessar liquidez. O número de contas abertas é um indicador de acesso; a qualidade da inclusão depende de custos, possibilidades de escolha e capacidade de utilizar crédito de maneira sustentável.

A resposta precisa ser estrutural

A educação financeira pode ajudar o consumidor a compreender contratos, mas não modifica sozinha sua renda, seu patrimônio ou a disponibilidade de garantias. É necessário avaliar o desenho das linhas de financiamento, a competição por clientes, as condições oferecidas a pequenos empreendedores e a existência de tratamento inadequado por parte das instituições.

O sistema bancário só pode afirmar que ampliou a inclusão de maneira efetiva quando a expansão dos serviços vier acompanhada de melhores condições de financiamento, especialmente para os grupos historicamente mais vulneráveis.

Fonte: TV Brasil — divulgação do Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central.

Fonte: Banco Central — cidadania e inclusão financeira.

Imagem de capa ilustrativa. Análise editorial do FandNews; os argumentos devem ser distinguidos dos dados atribuídos às fontes.

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